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Hilton Rayol Filgueira
Comandante de Voo
Especialista em Gestão e
Direito Aeronáutico pela UNISUL

Tema apontado como um dos mais importantes na aviação, com foco em aspectos relevantes que são utilizados durante a operação de voo auxiliando os tripulantes para um melhor gerenciamento de cabine. Esse artigo tem o intuito de discorrer sobre essas ferramentas, que oferecem o suporte para a tripulação em manter o voo cada vez mais seguro e eficiente.

O treinamento em Gerenciamento de Recursos de Tripulação – Cockpit – (CRM) originou-se de um workshop da NASA, em 1979, que se concentrou em melhorar a segurança aérea. A pesquisa da NASA apresentada nesta reunião constatou que a principal causa da maioria dos acidentes de aviação foi erro humano, e que os principais problemas foram falhas de comunicação interpessoal, liderança e tomada de decisão no cockpit.

Recursos geridos pelo sistema CRM. Fonte: Potatle Aviation, 2012.

O treinamento de CRM engloba uma ampla gama de conhecimentos, habilidades e atitudes, incluindo comunicação, conscientização situacional, resolução de problemas, tomada de decisões e trabalho em equipe; juntamente com todas as subdisciplinas que cada uma dessas áreas implica.

O CRM pode ser definido como um sistema de gestão que faz uso otimizado de todos os recursos disponíveis – equipamentos, procedimentos e pessoas – para promover a segurança e aumentar a eficiência das operações de voo.

Mas, o que é Fator Humano na Aviação?

Para a International Civil Aviation Organization (ICAO), o conceito de Fator Humano (FH) “[…] refere-se ao estudo das capacidades e das limitações humanas oferecidas pelo local de trabalho.” Ou seja:

[…] é o estudo da interação humana em suas situações de trabalho e de vida: entre as pessoas e as máquinas e equipamentos utilizados, os procedimentos escritos e verbais, as regras que devem ser seguidas, as condições ambientais ao seu redor e as interações com as outras pessoas. Todos esses aspectos podem influenciar no comportamento no trabalho de maneira a poder afetar a saúde e a segurança (BRASIL In: MELÃO, 2018, p. 13).

Observa-se que na aviação o estudo do Fator Humano abarca todos os aspectos do comportamento e desempenho humanos, desde a tomada de decisões e demais processos cognitivos, além do projeto dos instrumentos e das cabines de pilotagem, as comunicações e o suporte lógico dos computadores. Nesse contexto, a compreensão do FH é uma tarefa multidisciplinar por natureza (MELÃO, 2018).

Da definição de FH da FAA, Martins et al. (In: MELÃO, 2018) conclui que o Fator Humano é o estudo do ser humano como parte central de qualquer sistema e que isso se dá pela:

[…] identificação de capacidades e limitações para, posteriormente, adaptá-las conforme os demais componentes do sistema; pela quantificação do desempenho humano através de medidas como tempo, unidades de trabalho, segurança, erro, e mudanças necessárias relacionadas a uma situação específica; por projetos ou modificações dos sistemas de acordo com as necessidades identificadas, buscando o melhor desempenho humano possível.

A Resolução A26-9, elaborada por ocasião da Assembleia da OACI, definiu o objetivo da tarefa relativa aos fatores humanos, qual seja:

Aumentar a segurança da aviação fazendo com que os Estados se mostrem mais conscientes e atentos à importância do fator humano nas operações de aviação civil, adotando textos e medidas práticas relativas ao fator humano […]

De acordo com a ilustração abaixo, chamo a atenção para os seguintes pilares:

CRM. Fonte: O autor, 2019.

O primeiro pilarcomunicação – tem um papel importante durante as operações de cabine e os membros da tripulação. Na falta de comunicação, é impossível haver gerenciamento de cabine. Comunicar com qualidade é mais do que falar com clareza e na fraseologia padrão. Significa assegurar que todos compreendam o que é dito.

Podemos observar na figura acima um dos pilares que entendo ser uma excelente material para resolução de problemas durante o voo. De acordo com pesquisas, a falta de comunicação de qualidade, é impossível haver gerenciamento de cabine, ou seja, comunicar com qualidade é mais do que falar com clareza, significa assegurar que todos compreendem o que é dito.

Um dado interessante que envolve a comunicação, são os filtros que tem a característica de modificar a forma que a mensagem é recebida e o aparecimento de barreiras que impedem que a comunicação.

Os filtros podem ser divididos em filtros pessoais e filtros situacionais. Exemplos de filtros pessoais são: preconcepção de ideia (ideia já formada), reação treinada, competição, vaidade e arrogância. Os filtros situacionais incluem ruído, distração, fadiga, estresse, conflitos emocionais e diferenças de linguagem.

As barreiras podem existir em condições de desnível de autoridade, desnível de experiência, conflitos interpessoais, complacência, resignação, comportamento autoritário e falhas de sistemas de comunicação.

O segundo pilar trata da Dinâmica da Tripulação, que visa o trabalho em conjunto da tripulação, agindo de maneira cooperativa e sinérgica, e como essa ferramenta funciona durante as operações?

Por exemplo, para uma situação em que o foco seja unicamente a execução de uma tarefa, o comandante necessitará ser diretivo e comunicar uma ordem. Em outra situação em que o foco na tarefa seja secundário e o foco principal seja o relacionamento entre a tripulação, o comandante poderá ser participativo e discutir o processo de tomada de decisão com o grupo.

Ou seja, estamos diante de um trabalho em equipe, dividindo tarefas, buscando ser assertivo de maneira participativa, e mantendo uma boa comunicação para a tomada de decisão. Assim sendo, estudos apresentam alguns aspectos que são eficazes para a utilização desta ferramenta:

  1. atribuir a tarefa de acordo com a capacidade, o treinamento e a experiência;
  2. descrever completamente a tarefa, sem presunção ou expectativa do conhecimento dos outros;
  3. checar a compreensão da delegação feita;
  4. não ridicularizar dúvidas dos elementos ao qual foi delegada a tarefa;
  5. respeitar o espaço e o tempo da execução da tarefa delegada;
  6. supervisionar o contexto da execução da tarefa;
  7. motivar a execução;
  8. cobrar o feedback da conclusão da tarefa;
  9. reconhecer a contribuição da tarefa no contexto.

O terceiro pilar aborda sobre a Consciência Situacional (CS). De acordo com Endsley (2012), CS é a percepção precisa dos fatores e condições que afetam uma operação diante de uma equipe durante um período de tempo definido.

Ter consciência situacional é apresentar sintonia entre a situação percebida pela tripulação e a situação real. Em voo, esta percepção pode ser afetada por diversos fatores como falta de treinamento, inexperiência, complexidade da tarefa, carga de trabalho, clima organizacional, processos de automação, etc.

Na aviação, a Consciência Situacional é a percepção precisa dos fatores e condições que afetam uma aeronave e sua tripulação. Na prática, é estar ciente do que acontece ao seu redor e com a tripulação e pensar “à frente da aeronave”.

Podemos observar na figura abaixo os aspectos referentes a Consciência Situacional que está categorizado em níveis:

O primeiro nível é o da Percepção. Esse nível envolve a percepção clara dos elementos relevantes ao redor do indivíduo e da aeronave e dos eventos em acontecimentos. Essa percepção demanda atenção e depende da intensidade do estímulo. Um piloto deve ter percepção clara dos elementos relevantes ao seu redor, tais como outros aviões, posição geográfica, proximidade do solo, morros e montanhas, dados do voo e da navegação (flight data), avisos luminosos, entre outros.

O segundo nível é o do Entendimento. A percepção só não basta é necessário ter um entendimento do significado de todos os elementos e eventos. Por exemplo, se os sinais de emergência indicam um problema durante a decolagem, o piloto deve rapidamente avaliar a gravidade do problema e decidir sobre o prosseguimento ou a abortiva da decolagem.

O último nível é o Projeção Futura. É a capacidade de antecipação de ocorrências futuras, a partir da compreensão dos elementos no ambiente de trabalho. Através da experiência acumulada e com base em treinamentos técnicos, a tripulação deve fazer projeções e antecipar os efeitos dos seus atos.

Por último, o quarto pilar do CRM é o Processo Decisório. Consiste em desenvolver uma abordagem mental sistemática para determinar a melhor ação aos eventos relacionados à atividade aérea. O processo decisório é o processo de reconhecer a necessidade de tomar uma decisão, identificar o problema, coletar fatos, identificar alternativas, pesar a influência delas e selecionar e implementar uma resposta.

A capacidade de julgamento e o processo decisório estão inter-relacionados, e muitos fatores podem afetar o julgamento. Os pilotos devem precaver contra as atitudes perigosas, listadas abaixo, que degradam a capacidade de julgamento e de decisão.

REFERÊNCIAS

  • FALCON ESCOLA DE AVIAÇÃO CIVIL. Princípios do CRM. Voe Falcon, [200-?]. Disponível em: www.voefalcon.com.br. Acesso em: 1 jul. 2019.
  • MELÃO, Luiz Fernando Correa e Castro. Fadiga humana: prejuízos à segurança de voo. Unisul, Palhoça, 2018. Disponível em: ttps://www.riuni.unisul.br/bitstream/handle/12345/6151/TCC%20CORIGIDO%20FINAL.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 3 jul. 2019.
  • POTATLE AVIATION. O fator humano na Aviação. Potatle Aviation, 25 jul. 2012. Disponível em: potatleaviation.blogspot.com. Acesso em: 30 jun. 2019.
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