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Revista Encontro BH, por Rafael Campos

Minas Gerais – Cabelo preso em trança alta, macacão laranja, andando a passos firmes em direção a um helicóptero enorme, vermelho e amarelo. Essa é major Karla Lessa em serviço, no Batalhão de Operações Aéreas do Corpo de Bombeiros, na região da Pampulha, instantes antes de entrar no arcanjo e seguir rumo ao horizonte para os chamados do dia. Não há muito tédio envolvido em seu trabalho como piloto.

Há estresse, correria, episódios de tristeza. E outros muito gratificantes. No dia em que estava marcada a entrevista para o especial da Revista Encontro BH, por exemplo, não houve tempo para o papo, já que a major foi convocada, logo na hora, para uma missão de transporte de órgãos em Ponte Nova, cidade da Zona da Mata mineira.

Major Karla Lessa a primeira mulher comandante de helicóptero dos bombeiros de Minas Gerais. Foto: Divulgação

Gentil e sorridente, ela posou para as fotos (“posso ficar apenas enquanto a equipe médica não chega”), remarcou a conversa e marchou, altiva, em direção a uma das aeronaves. Na tarde seguinte, quando pôde dar entrevista, comentou como o dia anterior havia sido gratificante. Conseguiu trazer o coração a tempo e depois procurou saber sobre a cirurgia de transplante. “O médico disse que tinha sido um sucesso. Me mostrou o vídeo do coração batendo”, conta, emocionada. “Foi um dia muito corrido, cheguei em casa cansada, mas aliviada.”

Perfil:

  • Karla Lessa Alvarenga Leal, 37 anos;
  • Nasceu em Belo Horizonte, MG;
  • Casada;
  • É major do Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Minas Gerais, comandante de helicóptero da Esquadrilha Arcanjo.
Major Karla Lessa do Corpo de Bombeiros de MG foi destaque em reportagem da Revista Encontro BH. Foto: Violeta Andrada/Encontro

Certamente, no entanto, o episódio mais marcante do ano para a primeira mulher comandante de helicóptero de bombeiros militares do Brasil aconteceu em 25 de janeiro. Foi quando rompeu a barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, matando 270 pessoas.

Major Karla foi a primeira piloto a sobrevoar a região, vendo de cima a proporção do desastre e imaginando, de cara, a quantidade de vidas perdidas. Naquele dia, realizou um salvamento que foi televisionado ao vivo e cujas imagens rodaram o mundo. Ela pilotava o helicóptero que foi ao resgate da estudante Talita Cristina de Souza, na época com 15 anos, uma das sobreviventes da tragédia.

Em manobra difícil, a militar manteve a aeronave estável, próxima ao solo, enquanto voluntários e socorristas retiravam a jovem, completamente coberta de rejeitos, do lamaçal. A piloto se tornou símbolo da rede de doação e coragem que tomou conta de Brumadinho após o desastre.

Major Karla Lessa do Corpo de Bombeiros de MG foi destaque em reportagem da Revista Encontro BH. Foto: Divulgação.

Desde então, recebe cartas, mensagens, desenhos de crianças e ligações de pessoas de todo o país, agradecendo por seu serviço e a homenageando. Também recebeu medalhas, comendas, foi homenageada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais e convidada a palestrar em várias cidades do país.

“Foi um desastre causado pelo homem, mas, de forma controversa, naquele momento de tanta angústia, a gente pôde perceber a preocupação com o outro. Pessoas do Brasil inteiro estiveram dispostas a ajudar, a se doar para aliviar um pouco a dor do próximo”, diz.

Major Karla continuou atuando em Brumadinho ao longo do ano. A necessidade de apoio aéreo diminuiu gradativamente, mas a operação dos bombeiros continua, pois ainda há corpos desaparecidos. Desde o ocorrido, já reencontrou Talita e também sua irmã Alessandra de Souza, outra sobrevivente do desastre que foi transportada de helicóptero para BH. “Ver a recuperação delas é uma sensação de dever cumprido para mim.”

Major Karla Lessa a primeira mulher comandante de helicóptero dos bombeiros de Minas Gerais. Foto: Divulgação
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