HANDERSON PESSOA

A aula segue o fluxo que eu imaginava que seria, até que, de repente, somos surpreendidos por um barulho muito forte, constante e que aumentava cada vez mais.

Olho para a porta de vidro e lá fora tem uma babel de pessoas. É impossível conter a curiosidade e vamos todos para a porta ver o que há lá fora que desperta tanta atenção das pessoas.

Do alto vem um helicóptero, enorme, branco, preto e vermelho. Águia 4 da Polícia Militar.

O que será que aconteceu?

Fernandinho Beira-Mar escapou e veio pra São Paulo? Outra rebelião de presos que conseguiram escapar e estão sendo perseguidos pela polícia ? Será que começou mais uma guerra mundial?

Diversas viaturas fecham a rua nos dois sentidos e a quantidade de gente aumenta. O helicóptero pousa no terreno vazio, levantando uma coluna de poeira, lixo e tudo que é porcaria que a população joga ali naquele terreno abandonado por tudo e todos.

Um pouco mais abaixo na rua, o acidente.

Duas motos se chocaram de frente em alta velocidade. Os dois pilotos ali deitados inertes no asfalto.

É um resgate.

E os dois pilotos então sobem cada vez mais alto no céu. Um de helicóptero, o outro não precisou dele.

E enquanto todo mundo se choca e olham perplexos para aquela cena, que em outro lugar poderia ser surreal, mas que aqui na zona sul de São Paulo virou parte do cotidiano da megalópole, eu fico fazendo um monte de perguntas mentais.

Quem eram essas pessoas? Quais os sonhos que elas tinham? O que será que pensaram no último segundo quando viram que aquele acidente não poderia mais ser evitado?

Como não tenho respostas. Fico imaginando as famílias.

Oito da noite. Arroz no fogo. A criança pergunta: “Mamãe, por que o papai tá demorando?” e a mãe diz que talvez ele tenha ficado até mais tarde no trabalho fazendo hora extra.

Liga para o celular do marido, mas está desligado.

Batidas na porta. Polícia? O que aconteceu? Ela abre já pressentindo o pior e tenta sem sucesso driblar a lágrima que já brota. “Dona fulana, não temos boas notícias, o seu marido, ele infelizmente, bem, ele…

Acordo do meu devaneio quando as viaturas liberam a pista nos dois sentidos e vejo o tamanho do engarrafamento causado. Nenhuma novidade. Mas volto completamente sem clima para a aula, pensando no que acabou de acontecer.

Sei que já deveria ter me acostumado com esse tipo de coisa, afinal, é tão freqüente por aqui, mas existem certas coisas que não dá pra acostumar. Nem aceitar.

Fonte : blog Paranóias e Delírios de Handerson Pessoa.

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