Rio Grande do Sul – O Batalhão de Aviação da Brigada Militar (BAv) passou a integrar, no dia 26 de dezembro de 2016, a 47ª Operação Golfinho. Militares do BAv e da Companhia Especial de Busca e Salvamento do Corpo de Bombeiros Militares do RS realizaram diversos treinamentos no Centro de Formação Aeropolicial, em Capão da Canoa.
A ênfase da qualificação são as missões desempenhadas pelos policiais militares e bombeiros na Operação Golfinho, como salvamentos aquáticos com apoio de aeronave, resgates, remoções aeromédicas, entre outras.
Os treinamentos começaram no dia 26/12, quando foram realizados exercícios de salvamento aquático com o apoio de um cesto. O equipamento, que é um projeto piloto, foi desenvolvido pela empresa Salem Macas Especiais, que desenvolve equipamentos em parceria com o Corpo de Bombeiros do RS.
De acordo com o especialista em resgate e sobrevivência, Itamar Salem, “o cesto foi desenvolvido para atender uma necessidade de inovação, tendo em vista o equipamento de içamento (guincho) instalado na aeronave”, ressaltou. Ele disse também que não existe equipamento semelhante em operação no Brasil.
O major Danubio Engers Lisboa, que coordenou o treinamento, disse que “o cesto é uma evolução em relação à ferramenta antiga, o puçá (cesto preso à aeronave por um cabo que fica tensionado e onde a vítima é colocada) porque o içamento do cesto até a aeronave proporciona maior segurança no deslocamento até o local seco onde a vítima receberá o atendimento de suporte básico da vida”, explica.
Os testes iniciais com o novo equipamento já apresentaram resultados positivos. Durante a tarde, os salva-vidas testaram as técnicas de resgate aquático com apoio do helicóptero AW119Ke – Koala na lagoa dos Quadros, em Capão da Canoa. Os exercícios prosseguiram até o dia 28/12, quando os militares aperfeiçoaram os métodos no mar e outras modalidades de resgate.
A aeronave Koala (AW119Kx), que pela primeira vez atua diretamente na Operação Golfinho, se mostrou extremamente eficiente para os mais diversos tipos de operação. Seja por meio do Hoist (Guincho de Carga) ou do Cargo Hook (Gancho de Carga), a aeronave dispõe de espaço de cabine, potencia e estabilidade necessárias para operações seguras, nas suas mais variadas formas. Foram feitos treinamentos com o Cesto de Salvamento, como Puçá e, também com o Sling.
Para combate a incêndio, o Guapo é equipado, também, com “Bumbi Bucket” que tem capacidade máxima de 900 litros e, para operações noturnas, possui Farol de Busca Spectrolab, modelo SX16.
A Operação Golfinho 2016/2017 se estenderá até o final de semana seguinte ao carnaval.
Por volta das 1500h do dia 13 de abril a Base de Radiopatrulha aérea de São José do Rio Preto foi acionada para apoio ao 13º Grupamento de Bombeiros em ocorrência de queda de guindaste e desestabilização da estrutura nas obras do Shopping Iguatemi Rio Preto. Dois operários que se encontravam trabalhando na fixação de parafusos estruturais nas vigas da estrutura ficaram isolados.
Segundo informações, Ricardo de Oliveira Lopes e José Bento Sobrinho trabalhavam na fixação de parafusos estruturais que uniam vigas quando, após desestabilização do solo, o guindaste que carregava peças e ferramentas tombou e colidiu com a viga na qual eles estavam, sem causar-lhes ferimentos, mas impedindo seu retorno e colocando-os em perigo, pois, segundo o engenheiro da obra, havia grande risco de queda da estrutura, o que impedia, também, que as equipes do Corpo de Bombeiros que estavam no local de atuar, pois não havia qualquer caminho para acessar as vítimas.
Diante dos fatos, a tripulação preparou todos os equipamentos (cesto, corda e bolsa de salvamento para o caso de utilização de técnica de Mc Guire). Após sobrevoo no local afim de verificar qual tipo de operação mais adequada para o caso em específico, uma vez que havia diversos fatores de risco envolvidos, tais como vento (por ser uma região descampada), equipamentos da obra (guindastes), vergalhões das vigas, bem como as condições das vítimas, foi definido em briefing todos os procedimentos que seriam adotados em cada uma das possíveis técnicas utilizadas, ficando claro dentro da tripulação o que seria feito em cada momento, bem como a função de cada um.
Após alguns minutos o homem SAR, embarcado no cesto, conseguiu acessar as vítimas e colocar uma delas no cesto. Devido à movimentação do cesto foi necessário reposicionar a aeronave para embarque da segunda vítima, que muito mais nervosa, hesitava em retirar sua ancoragem da viga, o que trazia bastante perigo a operação. Com tranquilidade o homem SAR conseguiu convencê-la e embarca-la no cesto.
Houve deslocamento até a área escolhida para preparação da operação e desembarque das vítimas onde as ambulâncias e viaturas de resgate aguardavam para dar o primeiro atendimento às vítimas. Segundo informações do Dr. Renan, médico da USA 01 da Rodovia Transbrasiliana, que realizou os primeiros socorros, as vítimas não sofreram nenhum tipo ferimento, porém estavam em estado de choque, sendo necessário medicá-las e ficarem em observação.
Vários motoristas que trafegavam na Avenida dos Estados, na região de Santo André, no ABC, foram surpreendidos pelo transbordamento do Rio Tamanduateí no final da tarde desta terça-feira (18). Presos na inundação, alguns deles precisaram se refugiar nos tetos de seus carros.
O helicóptero Águia, da Polícia Militar, teve de ser acionado.
O Estado de Pernambuco sofreu com a chuva, sendo as áreas mais atingidas a região da Mata Sul do Estado.
Veja o vídeo da reportagem com imagens impressionantes da força da água e a atuação do GTA – Grupamento Tático Aéreo realizando salvamentos com a utilização do cesto.
Duas crianças foram retiradas de dentro de uma casa no início da noite desta quarta-feira (16/12/09) na região do Jaraguá, na Zona Norte de São Paulo. Elas foram colocadas dentro de uma cesta e içadas pelo helicóptero Águia, da Polícia Militar.
O cesto é um equipamento empregado nos casos em que pessoas estejam isoladas e em situação de perigo (incêndios, pessoas perdidas ou feridas na mata, enchentes, retirada de pessoas de embarcações e ilhas, desde que próximo da orla, etc). Essas situações podem ser variadas, salvaguardando as restrições de cada uma destas modalidades.
O cesto se tornou ao longo da história do GRPAe um dos equipamentos de total relevância, visto a importância e a repercussão adquirida favoravelmente no salvamento realizado na Favela de Heliópolis ocorrido em 17 de junho de 1996, o qual foi realizado com extremo sucesso. Nesta fase de crescimento e de absorção de conhecimento o cesto utilizado não possuía os mesmos padrões e tão pouco as certificações que hoje nos alicerçamos para operações de salvamento, seja terrestre ou em altura.
Um apontamento histórico e de extrema relevância foi como surgiu o cesto no GRPAe da PMESP e no Brasil. Em 1986, o então 1º Ten PM Otacílio Soraes de Lima, assistindo a um filme americano da época, observou a cena de um resgate de refugiados de gerra com um helicóptero Bell 206, que, utilizando um cesto, retirava 3 ou 4 pessoas do local onde se encontravam enclausuradas. Essa cena não durava mais do que trinta segundos e como nesta época não havia a tecnologia atual disponível, muito menos a facilidade das informações, o referido comandante reviu o filme várias vezes e fez um protótipo sete vezes menor do que era apresentado no filme. Com o protótipo na mão, levou-o à Casa das Cordas em São Paulo, a fim de conseguir alguém que pudesse reproduzí-lo em escala real. Foi indicado para tal trabalho o Sr Aparecido, uma pessoa que prestava serviço para essa loja e para a Petrobrás, um artezão. Assim, foi contruído o primeiro cesto no Brasil. Com o falecimento do Sr Aparecido os cestos subsequentes foram confeccionados com fitas tubulares, até que chegássemos nos atuais cestos de salvamento.
Operações realizadas com o uso do cesto em enchentes
Naquela época este equipamento consistia basicamente de dois aros, sendo um inferior e outro superior e todo ele revestido por fitas tubulares, inclusive a parte fixa ancorada ao cesto que se liga ao gancho da aeronave. Percebeu-se então que este tipo de material teria o seu tempo útil muito reduzido, devido ao tipo de exposição que ele sofreria no decorrer das ocorrências.
RECOMENDAÇÕES
Além da preocupação com o material utilizado para a confecção do cesto, sua forma de utilização é vital para o sucesso da missão, assim, alguns procedimentos devem ser adotados. Considerando que a aeronave utilizada seja um As 350 B2 (Esquilo), onde o gancho da aeronave suporta até 750 kgf, os passos as seguir devem ser observados e considerados:
a) Fixação do estropo ao gancho da aeronave com seu back-up. Este Back-up está sendo testado em decorrência de missão anteriormente executada, onde houve o acionamento involuntariamente do gancho. A conexão ao gancho é realizada através de uma sapatilha envolvida por alça do trançado da corda;
b) Comprimento do cabo (estropo) é de apenas de 10m. A extensão do cabo é um fator limitador em casos de qualquer estrutura que atinja o seu comprimento;
c) Fixação do tripulante ao cesto. Por experiências anteriores o tripulante deve estar fixado ao cesto, por um talabarte de ancoragem (Jane), visto que alguns foram puxados para fora devido ao desespero das vítimas;
d) Número de pessoas a serem embarcadas no equipamento. Além do tripulante, embarcamos mais duas vitimas adultas, fazendo a média de 100 kgf para cada pessoa dentro do cesto, vale lembrar a capacidade do gancho;
e) Quais pessoas podem e/ou devem ser embarcadas no equipamento. Toda e qualquer pessoa que esteja consciente ou inconsciente, desde que não tenha sido acometida de qualquer trauma (fratura) principalmente a de coluna, nestes casos, passa a priorizar a retirada com a técnica de “Mc Guire” com a maca Sked;
f) Vale lembrar que o cesto gira, porém não há perigo de torção devido a instalação de um distorcedor como mostra a figura ao lado.
DESCRIÇÃO DO CESTO DE SALVAMENTO
Equipamento destinado a salvamento em altura, locais confinados e de dificil acesso, que consiste em dois aros tubulares de duro alumínio com 1’ (uma polegada) de diâmetro externo, e 1/8” (um oitavo) de polegada de espessura do seu material e, como regra geral, segue a seguinte descrição técnica:
1. Aro Superior
Aro Superior de 70cm (setenta) de diâmetro medido pela sua parte externa revestido com cordim branco de poliamida de 06mm (seis milímetros) , duas cordas do tipo naval de ½” (meia) polegada com o comprimento de 90cm (noventa) centímetros que formarão 04 (quatro) tirantes, a distância de fixação entre elas devem ser diametralmente opostos, sendo que um deles deve estar no centro da abertura que será a entrada/saída do equipamento. O nó de ligação da corda naval com o aro superior deve ser a “volta do fiel” utilizando como acabamento deste nó uma falcaça de 10cm (dez) centimetros de comprimento com o cordim de poliamida branco de 3mm (três) milimetros, estes tirantes funcionarão como suporte de sustentação do cesto. Na parte superior no permeio da corda naval colocar uma manilha de aço, e 3cm (três) centimetros abaixo inciar uma falcaça de 10cm (dez) centimetros de comprimento com o cordim de 6mm (seis) milímitros para o acabamento.
Detalhes do aro superior do cesto
2. Aro Inferior
Aro inferior de 1,00 (um) metro de diâmetro medido pela parte externa, sendo da mesma espessura do aro superior, revestido com cordim branco de poliamida de 06mm (seis) milimetros, se interligando ao aro superior por meio por meio de tirantes. No aro inferior terá ainda 4 (quatro) tirantes que estarão ligado ao centro por uma argola de aço de 8cm (oitro) centímetros de diâmetro, e nas suas extremidades ligado ao aro de uma maneira tensionada com o nó “volta do fiel” utilizando como acabamento deste nó uma falcaça de 10cm (dez) centimetros de comprimento com o cordim de nylon poliamida branco de 3mm (três) milimetros, que será a base de sustentação para a malha que virá; a distância de fixação entre elas devem ser diametralmente opostos. Depois de estar todas as cordas instaladas e acabadas colocar proteção de mangueira de PVC “Transpower” de cor azul de 5mm (cinco) milímitro de espessura.
Detalhes do aro inferior e da malha do aro inferior
3. Malha do Aro Inferior
É confeccionados em rede de malha do tipo “pescador” com o cordim de nylon trançado de 6 mm (seis) milímitros de espessura, nó tipo “escota dupla”, tendo um espaçamento entre as malhas de 5cm (cinco) centímetros, que devem ser fixado em todas a extensão do aro e colocada sobre a argola central e os quatros tirantes.
4. Corpo de Sustenção do Cesto
Sustentação lateral se dará por 09 (nove) tirantes de corda de nylon torcida de ½” (meia) polegada, com 2,00 m (dois) metros de comprimento e fixados de forma que fique uma abertura de 40cm (quarenta) centímetros de distância, abertura esta que será a porta de entrada/saída. Tomando como referência as cordas base da abertura da porta as demais devem ser disposta da seguinte forma: 02 (duas) cordas a 15cm (quinze) centímetros de distância das cordas bases pela sua parte externa e as 05 (cinco) cordas restantes devem ser dispostas de maneira uniforme entre elas tanto no aro superior quanto no aro inferior, utilizando o nó “volta do fiel”, e com acabamento de 10cm (dez) centímetros de falcaça, tanto no aro superior como no aro inferior, utilizando cordim de 3mm (três) milímitros.
5. Malha do Cesto
É confeccionados em rede de malha do tipo “pescador” com o cordim de nylon trançado de 5mm (cinco) milímitros de espessura, nó tipo “escota dupla”, cobrindo 5/6 da circuferência do cesto, deixando apenas 1/6 que será a abertura de entrada/saída. A malha deve ter um espaçamento entre elas de 8cm (oito) centímetros.
6. Estropo
É uma corda naval de nylon poliamida trançada de 1” (uma) polegada com 10m (metros) de comprimento, que será a ligação do gancho da aeronavave com o cesto propriamente dito. Em uma de suas extremidades deverá ter uma sapatilha de aço presa por uma alça feita do trançado na corda, e na outra extremidade deverá conter além da sapatilha fixada da mesma forma que a anterior terá um distorcedor de aço.
7. Corda para Porta
Esta corda será o delimitador da porta, e ela deve ser em quantidade de 5 (cinco) partes, cada parte deverá ter 60 (sessenta) centímetros de comprimento, em corda de poliamida de 11(onze) milímitros de coloração azul ou preta. A fixação desta corda deverá ser nas cordas laterais do corpo do cesto que delimitam a porta. Na parte que ira ser fixa utilizar um nó “volta do fiel” e com acabamento em cordim branco de 03 (três) milímitros, em comprimento de 10 (dez) centímetros. Na parte móvel deve ser feitas uma alça em acabamento com cordim branco de 03 (três) milímitros, em comprimento de 10 (dez) centímetros, que será encaixado no seio da alça um mosquetão de aço de engate rápido. A distribuição deve ser de forma uniforme compreendendo a altura total do cesto.
Tipos de nós utilizados na confecção do cesto: pescador simples, falcaça e volta do fiel, respectivamente
8. Bolsa de Acondicionamento
A bolsa de acondicionamento acompanhando a ergonometria do equipamento devendo ser confeccionada em lona plástica de cor laranja e com reforços em suas paredes, com zíper para fechamento, e ainda uma possuir duas alças para facilitação do transporte.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O cesto é, certamente, um equipamento muito útil e com o qual podemos dispor nesta modalidade de salvamento. O objetivo aqui é o aprimoramento da técnica e do equipamento, assim, pilotos e tripulantes do GRPAe/SP efetuaram estudos e testes buscando o melhor tipo de material a ser utilizado na sua confecção, almejando adquirir maior longevidade e performance, chegando-se a um consenso e, assim, esse equipamento passou a ser adotado pelo GRPAe e por suas Bases destacadas.
Fonte: Esse texto foi escrito por Eduardo de Moraes Gomes (tripulante operacional), entretanto, essa técnica e equipamento foram desenvolvidos por tripulantes operacionais e pilotos do Grupamento de Radiopatrulha Aérea da Polícia Militar de São Paulo, após muitos debates e testes e, atualmente, é equipamento adotado por essa Unidade de Aviação Policial.
Resumo: Analisa a atuação de helicópteros do Grupamento de Radiopatrulha Área da Polícia Militar do Estado de São Paulo no incêndio na favela denominada Heliópolis, na Capital do Estado em 1996.
Palavras-chave: Uso de helicóptero, fogo, salvamento e operação resgate.
Manhã do dia 17 de junho de 1996. Era um dia nublado que, por volta das 06:30 horas, mal acabara de nascer. Como rotineiramente fazemos, naquele dia cheguei ao nosso hangar no Campo de Marte, vesti meu macacão de voo e respectivos acessórios e me dirigi até minha aeronave, a fim de fazer o pré-voo1. Como sempre, as aeronaves já estavam devidamente inspecionadas pelos mecânicos de serviço e prontas para a operação daquele dia, que aparentava ser mais um dia normal, sem grandes diferenças dos anteriores.
Estava escalado como Comandante de Aeronave2 da equipe “A”3, motivo pelo qual fazia o pré-vôo do Águia Seis, preparando-o para a execução do vôo de trânsito4. O Tenente Peixoto, Comandante de Operações e meu segundo piloto, procedia o briefing5 ao tripulante e passageiros não habilitados, no caso, um oficial do Comando de Policiamento de Trânsito e um engenheiro da Companhia de Engenharia de Tráfego – CET, da Prefeitura do Município de São Paulo.
Neste ínterim, o Capitão Monte Oliva, Comandante da Aeronave da Equipe “B”, fazia o pré-vôo do Águia Dois, enquanto o Tenente Médico Galetti e o Sargento Enfermeiro Pimentel checavam todos os kits de emergência e equipamentos médicos da aeronave. O Tenente Beni estava na sala de rádio, nossa Central de Comunicações, pois fora chamado pelo Tenente Joseval, chefe da equipe de tripulantes operacionais, para acompanhar o desenrolar de uma ocorrência com possível existência de vítimas em um prédio em chamas na favela Heliópolis, zona sul da cidade de São Paulo.
O APOIO DA IMPRENSA
A informação foi passada pelo Comandante Luchesi 6, piloto da aeronave da Rede Globo, a qual fazia seu rotineiro voo de reportagem para aquela emissora de televisão, juntamente com a repórter Eleonora Paschoal e o repórter cinematográfico Edson Silva. Disse que, no local, havia várias vítimas e o fogo era muito intenso, sendo que até aquele momento não havia nenhuma viatura do Corpo de Bombeiros e o trânsito estava muito complicado na região. Notou-se que o mesmo estava muito emocionado ao passar as informações.
O ALARME É ACIONADO
Prontamente, às 07:20 horas, foi acionado o alarme, fazendo soar duas vezes a sirene, indicando que se tratava de ocorrência de resgate, quando decolou o Águia Dois, cerca de um minuto depois.
Tendo em vista a possibilidade de o Águia Seis ser utilizado em apoio a essa ocorrência, uma vez que havia informações não confirmadas de vítimas no teto do prédio em chamas, solicitei ao Tenente Peixoto que acompanhasse a fonia do Águia Dois, na sala de rádio, orientando os mecânicos na preparação do material que poderia ser usado para o potencial salvamento, adiando o vôo de trânsito.
Para mim, esse foi um momento de ansiedade, uma vez que passou em meus pensamentos que as únicas vezes em que helicópteros foram usados no Brasil em incêndios em edificações elevadas foram nas tragédias dos edifícios Andraus e Joelma. Comecei a pensar, apesar de nada confirmado ainda, como fazer para tirar as pessoas de cima de um prédio com os meios e técnicas que dispúnhamos. Não sabia a real extensão das chamas nem qual seria a reação da aeronave nessa situação. Nada escrito existia, nem ainda existe, sobre este tipo de emprego do helicóptero. O que eu tinha de informação eram apenas especulações e suposições. Afinal, naquela época o Grupamento de Radiopatrulha Aérea nem sequer estava nos planos da Corporação.
Finalmente, por volta das 07:27 horas, veio a confirmação, seis minutos após a decolagem do Águia Dois. Informaram que nossa decolagem deveria ser o mais rápido possível, uma vez que havia mais de vinte pessoas na última laje do prédio em chamas, sem a menor possibilidade de descerem com o auxílio dos bombeiros, já que era impossível o acesso ao local, devido ao fato de o fogo ser muito intenso.
Sobre a situação, esclareceu o Tenente Beni, pelo rádio:
“Ao chegarmos ao local, já havia várias viaturas do Corpo de Bombeiros, e a aeronave da Rede Globo filmando tudo. O Capitão Monte Oliva aproximou-se da laje do prédio, que estava com muita fumaça, quando então vimos várias pessoas sobre ele. Com a nossa aproximação, a fumaça dispersou e as vítimas conseguiram respirar. O Cap Monte Oliva verificou que o AB7 estava jogando água no segundo andar (o prédio tinha cinco andares), pois não viram as pessoas no teto, devido a fumaça. Imediatamente acionei o COBOM8 e solicitei que jogassem água no teto, pois havia várias vítimas, cerca de vinte. Em fração de segundos, o fluxo da água foi desviado e percebi que, pelo menos naquele momento, as vítimas estavam salvas, pois não agüentariam mais nem um minuto. Elas foram de encontro à água e se molharam desesperadamente, enquanto que, do chão, saía muita fumaça devido à vaporização pela alta caloria. Não sei quanto tempo elas agüentam. Venham logo com tudo o que puderem para fazer o salvamento, pois não podemos sair daqui.”
Conforme as orientações do Tenente Joseval, nosso mais experiente tripulante operacional, mandei instalar o material para o Rapel9 / McGuire10 e colocar o Cesto11 dentro da aeronave.
Chegando ao local, analisaríamos a situação e decidiríamos quais os meios e métodos seriam utilizados.
O APOIO CHEGA
Decolamos por volta das 07:35 horas, e quatro minutos após estávamos no local do sinistro. No caminho solicitei às aeronaves da imprensa que se afastassem do local para facilitar nossa operação e não haver a menor possibilidade de se criar uma situação de falta de segurança devido à proximidade com as mesmas, o que fizeram prontamente, desejando-nos boa sorte.
A cena presenciada é indescritível. De longe se via uma enorme nuvem de fumaça, tão densa que chegou realmente a preocupar. Chegando mais perto, avistamos o Águia Dois fazendo um voo pairado próximo ao canto superior esquerdo do edifício em chamas, mantendo-se cerca de dez metros das labaredas. As chamas saíam por todos os cantos do edifício e, no último pavimento, quase que “abraçavam” o prédio.
O prédio ficava num dos cantos da enorme favela. Tinha cinco andares e seu esqueleto de concreto parecia muito frágil naquele momento. Paredes só se viam algumas, de madeira e papelão, colocadas pelos “moradores”, uma vez que tudo já tinha sido consumido pelo fogo. Do segundo andar para cima, tudo era só concreto e ferros retorcidos no meio do fogo e fumaça intensos.
Próximo ao canto superior esquerdo, onde estava o Águia Dois, avistamos as pessoas aflitas, desesperadas, tentando se molhar na pouca água que o Corpo de Bombeiros conseguia jogar. Eram mais de vinte seres humanos. O Capitão Monte Oliva não podia sair dali, uma vez que, por acaso, verificou que a proximidade da aeronave afastava o fogo daquele lado. Por esse motivo, todas as pessoas se juntaram ali. Caso ele saísse, o fogo imediatamente atingiria aquelas pessoas. No entanto, minha aproximação ficaria muito restrita, pois a laje era pequena e nossas aeronaves correriam o risco de colidirem.
Pela fonia, o Capitão Monte Oliva me informou:
“Falconi, não posso sair daqui, porque o fogo está sendo mantido afastado devido à ação do vento do rotor12. Se eu me afastar daqui, certamente o fogo vai atingir as pessoas e elas vão acabar morrendo queimadas. Vá depressa, pois não sei quanto tempo poderemos ficar nesse pairado13, pois a aeronave está muito instável!”
Vimos várias crianças, e me lembro de ter visto uma senhora grávida, em estágio bem avançado. Essa senhora tentou saltar de lá de cima, mas um senhor a segurou. Todos pulavam como se estivessem proibidos de pisar no chão, o qual fervia de tal modo que a água jogada pelos bombeiros mal tocava o piso e já se evaporava, gerando muita fumaça.
Disse o Tenente Beni, após operação:
“Um momento que não esqueço foi quando uma mulher tentou pular. O Tenente Galetti (médico) gritava e gesticulava compulsiva e desesperadamente para alguém segurá-la. O Capitão Monte Oliva aproximou ainda mais a aeronave quando, então, a mulher foi segura por um homem e estava salva”.
Lembro que naquele momento cheguei a pensar que não seria possível fazer mais nada. Perguntei ao Capitão Monte Oliva, piloto muito mais experiente, como estava se comportando a aeronave naquele calor. Ele disse:
“Falconi, o helicóptero está bastante instável e exigindo bastante a potência do motor. Estou com o NG14 entre 97 e 98%. Acho que é melhor você usar o McGuire.”
Porém, decidi tentar antes uma aproximação com a aeronave, como se estivesse com o Cesto, com o objetivo de testar sua reação, uma vez que este equipamento é mais fácil de operar, mais rápido para instalar e é capaz de retirar mais pessoas ao mesmo tempo, se comparado com o McGuire.
Infelizmente, não foi possível. Constatei que o calor era muito intenso e, na distância necessária para colocar o Cesto no topo do prédio (cerca de seis metros), corríamos o risco de as chamas atingirem a aeronave, com conseqüências desastrosas.
Nesse mesmo momento,informou o Tenente Beni pelo rádio:
“Peixoto, não sei de que maneira, mas um bombeiro conseguiu chegar no topo do prédio. Ele está tentando acalmar as pessoas e está conseguindo controlar a situação.”
O USO DO McGUIRE PARA O SALVAMENTO
Pousei, então, em um prédio em frente ao que estava em chamas, para proceder a instalação dos cabos e preparar a aeronave para o McGuire. Tripulavam a aeronave o Tenente Joseval e o Sargento Adão. Solicitei ao Tenente Joseval que fosse embarcado, devido a sua experiência. Precisaríamos, portanto, de mais um tripulante para ser levado no McGuire com o Sargento Adão. Imediatamente, por solicitação do Tenente Peixoto, o Sargento Januário (do Corpo de Bombeiros) se apresentou para a arriscada missão. Nesse momento o Tenente Peixoto me falou:
“Falconi, pedi a um Sargento do Corpo de Bombeiros que fizesse o McGuire juntamente com o Sargento Adão. Ele nunca atuou em uma missão real, mas já o orientei sobre como proceder. O Adão está um pouco nervoso, mas disse que vai enfrentar a situação. Todos já foram orientados também pelo Joseval, e está tudo pronto para decolarmos.”Técnica do “McGuire” para condução dos tripulantes ao prédio de Heliópolis
Era a primeira vez que uma missão desse tipo seria realizada. A mesma consistia em içar os dois sargentos por meio de cabos conectados à parte interna da aeronave e colocá-los em cima do prédio. Cada qual iria com um cinto extra para conectar, com segurança, mais duas pessoas, repetindo-se a operação até tirarmos todos do prédio. Os cabos escolhidos foram os de cinqüenta metros, uma vez que permitiria realizar um vôo pairado de longa duração, exigindo o máximo de potência da aeronave, devendo mantê-la o mais distante possível do fogo e da fumaça.
Lembro do momento da decolagem do playground daquele prédio, cerca de dez minutos após (07:50 horas). A aeronave subia, subia e o cabo parecia não ter fim. As pás passavam muito próximas ao edifício. Finalmente, o cabo esticou e o Tenente Joseval deu “livre deslocamento”. Iniciei deslocamento à frente.
A teoria foi muito boa e o procedimento adotado, já treinado em outras situações sem a presença de fogo, foi o correto. No entanto, foi muito difícil a condução da aeronave até o local. O ar em torno do edifício era muito rarefeito e turbulento, devido ao calor. A visibilidade era muito prejudicada devido à fumaça, restringindo muito o uso de pontos de referência para fazer o pairado. Fiquei muito preocupado com aquelas vítimas e com a segurança da operação.
Após fazer a perna base 15, já na aproximação final para a colocação dos tripulantes no teto do edifício, iniciou-se um pêndulo 16 longitudinal e depois circular, motivo pelo qual tive que arremeter 17 e fazer novo circuito, uma vez que a situação não permitia mais ganhar velocidade. Novamente ocorreu o pêndulo e novo circuito foi necessário. Comecei a ficar impaciente, pois não conseguia tirar o pêndulo, mesmo com toda a calma passada pelos tenentes Joseval e Peixoto. O ar estava muito turbulento e quente, e os parâmetros da aeronave chegavam a todos os limites operacionais. Suava bastante, e a responsabilidade que imputei a mim aumentou, afinal aquelas pessoas estavam dependendo de nós.
Na terceira tentativa, finalmente, conseguimos colocar os tripulantes no teto do edifício.
A fumaça, por várias vezes, tirava minha visibilidade e, constantemente, tinha que mudar meus pontos de referência. O calor era, mesmo naquela altura, insuportável. Os parâmetros ficaram mais próximos ainda dos limites.
O Tenente Joseval passava a todo instante as informações necessárias: “aeronave à frente”, “aeronave à esquerda” etc., até que, em determinado momento, disse que os dois tripulantes estavam ancorados 18 as duas primeiras vítimas, ambas crianças.
Disse, depois, o Sargento Adão:
“Tenente, nunca estive numa situação tão difícil. Ao mesmo tempo que queria salvar aquelas pessoas, via que poderia morrer se o senhor cometesse alguma falha. As pessoas viram em nós sua tábua de salvação. Todos queriam ser os primeiros a serem socorridos e tive até de agir com energia, dizendo que a prioridade eram as crianças, depois mulheres e homens adultos. Houve até uma certa confusão, mas tudo acabou correndo bem. Selecionei as duas crianças menores e que estavam aparentemente piores. Coloquei umas delas em meus braços ancorada ao meu equipamento, o mesmo fazendo o Sargento Januário. Quando dei o sinal ao Tenente Joseval para abandonarmos o local, o senhor não imagina o alívio que senti, apesar de saber que deveria estar lá novamente para tirar as outras vítimas.”
Depois de ancoradas as crianças, o Tenente Joseval, finalmente, após “horas de ansiedade”, as quais duraram exatamente cinco minutos, deu “livre, aeronave para cima” e “livre deslocamento”. Durante aqueles cinco minutos, cheguei a pensar em abortar a missão, pois estava muito crítica, mas algo superior me acalmava. Pensei nos tripulantes que estavam arriscando suas vidas, sabendo que um pequeno erro em minha ação nos comandos e qualquer vacilo em superar aquelas dificuldades poderiam causar uma tragédia.
Nesse meio tempo, devido à ação do vento das duas aeronaves e à chegada de uma viatura do Corpo de bombeiros com uma escada alta o suficiente para jogar água no prédio, é que foi possível também àquele bombeiro, devidamente equipado com capa, capacete, bota e proteção respiratória, chegar ao topo, pelo o qual passou a coordenar a seqüência das pessoas que seriam socorridas pelos helicópteros.
O USO DO CESTO PARA O SALVAMENTO
Enquanto desembarcávamos as duas primeiras vítimas no estacionamento do prédio em frente, a fim de serem atendidas pelo pessoal do Resgate, o Capitão Monte Oliva saiu do local para pegar o Cesto que havíamos deixado no playground do mesmo edifício. Essa parte nós não vimos, porém ele me disse depois:
“Você não imagina com que aflição eu estava enquanto vocês não chegavam. Eu estava vendo as vítimas pulando feito pipocas na frigideira e não podia fazer nada. Até tentei aproximar a aeronave no teto, mas foi impossível. Vi então que não poderia sair mais dali, pois o pairado provocou o afastamento do fogo que abraçava a laje. Quando vi as dificuldades enfrentadas por você ao fazer o salvamento com o McGuire, achei que várias pessoas morreriam. Porém, o fogo foi diminuindo aos poucos com a chegada de mais água e a ação do vento do seu helicóptero. Então, para ganhar tempo, resolvi instalar o Cesto e tentar resgatar algumas vítimas, enquanto você fazia a operação com o McGuire.”Tripulação: Cap Monte Oliva (Cmt), Ten Beni (co-piloto – lançador) e Sgt Pimental (enfermeito – cesto)
Verifiquei então que o mesmo já estava em aproximação final para o topo do prédio, com o Cesto. Não entendi muito bem como o faria, uma vez que ele não tinha nenhum tripulante a bordo para fazer o lançamento, afinal tripulavam a aeronave, além dele, o segundo piloto, o oficial médico e o sargento enfermeiro. Depois o Tenente Beni me explicou:
“Resolvemos pousar no playground e instalar o Cesto. O Capitão Monte Oliva me perguntou se eu seria capaz de fazer o lançamento e eu, claro, disse que sim. O Sargento Pimentel, prontamente se ofereceu para ir no Cesto. Fizemos a instalação, um pequeno briefing e decolamos. Só depois fui ver como a situação era difícil. Fiquei deitado no piso da aeronave, e a sensação foi muito estranha, pois nunca tinha feito aquilo antes, apesar de ter participado, como segundo piloto, em várias situações e saber perfeitamente como proceder. No entanto, a situação assim o exigiu. Vi que a responsabilidade foi transferida toda para mim no que dizia respeito à orientação da aeronave, à vida do Sargento Pimentel e à vida das vítimas colocadas no Cesto.”
Disse depois o Sargento Pimentel:
“Nunca estive numa operação com Cesto, nem dentro dele. Mas a confiança que temos em Deus e na perícia dos pilotos, me deixou tranqüilo. Só não esperava que o Cesto, apesar de não pendular, girasse tanto. Achei que ia cair do topo do edifício na hora que desci do Cesto, pois eu estava muito tonto. Cheguei até a tropeçar. Ao colocar o pé na laje, minhas botas foram encobertas pela água fervente; foi quando senti a real situação daquelas pessoas. Colocamos mais três pessoas no Cesto, as que estavam piores, de acordo com minha avaliação de enfermeiro, entre elas a senhora grávida que quis se jogar de lá de cima. Percebi, então, que vários bombeiros já estavam conseguindo chegar ao teto e começaram a evacuá-las pela escada, protegidas pela água lançada pelo caminhão de bombeiros. Dei, então, o sinal ao Tenente Beni para decolarmos.”
Como os bombeiros já haviam conseguido chegar à laje e começavam a retirar as vítimas, uma vez que o fogo já havia baixado, o Capitão Monte Oliva resolveu pousar e suspender a operação de Cesto com seu helicóptero. O risco já não mais compensava, e a situação já estava sob controle dos bombeiros, apesar de ainda muito intenso o fogo. Continuou, então, com o apoio da equipe médica, na remoção dos feridos.
Retirada de vítimas com o uso do cesto
Enquanto o Capitão Monte Oliva fazia o salvamento com o Cesto, fiquei no pairado observando e avaliando a situação, quando o Tenente Peixoto, que já foi do Corpo de Bombeiros, notou que o combate ao incêndio estava prejudicado, pois os bombeiros não tinham acesso à parte dos fundos da favela, para onde o fogo se propagava. O vento estava levando as labaredas para os barracos próximos e ao outro prédio em construção, também invadido e não evacuado.
Que fique claro que isso não foi uma falha dos bombeiros, uma vez que a favela tem muitas ruelas estreitas e a distância da rua mais próxima, pela qual seria possível terem acesso as viaturas de bombeiros, era muito grande.
Também nos foi comunicado que a água das viaturas AT19 estava acabando e os hidrantes mais próximos, existentes no local, não estavam funcionando, o que aconteceu, provavelmente, devido ao fato de o local ter sido invadido, e as obras não terem sido concluídas. Tentaram coletar água do prédio em frente, mas a vazão era insuficiente.
O USO DO BAMBI BUCKET PARA DEBELAR AS CHAMAS
Apesar de já não haver vidas humanas potencialmente em risco, a não ser no caso de as chamas atingirem o outro prédio, decidi me deslocar com o Águia Seis ao Campo de Marte para instalar o Bambi Bucket20.
O Águia Cinco, tendo como Comandante o Tenente Henrique, como segundo piloto o Tenente Gaspar e Tripulante Operacional o Sargento Minozzi, já tinha decolado com equipamentos de salvamento Rapel / McGuire e Cesto para apoiar, se necessário. Eles compunham a Equipe “C”. Enquanto eu me deslocava para apanhar o Bambi Bucket, o Tenente Henrique começou a procurar algum manancial próximo ao local do incêndio que permitisse a coleta rápida de água.
As aeronaves da imprensa, que não perdiam nenhum detalhe, se prontificaram a também procurar, no entanto, quem acabou encontrando foi a própria tripulação do Águia Cinco. Tratava-se de um reservatório da SABESP próximo a divisa com Diadema. O Tenente Gaspar plotou o local através do GPS 21 e passou as coordenadas para nós, no Águia Seis.
Sugeri, então, que o Águia Cinco também retornasse a base para pegar outro Bambi Bucket para auxiliar nos lançamentos, diminuindo, assim, os intervalos entre os mesmos.
Chegando ao campo de Marte, solicitei a torre aproximação direta para o pátio do hangar da Policia Militar, procedimento não rotineiro. A torre marte imediatamente autorizou, uma vez que foi informada da emergência.
Os mecânicos já estavam a postos, com Bambi Bucket para 100% (580 litros), uma vez que estava com apenas 30% de combustível e o peso permitido. Depois de dois minutos devido a presteza dos mecânicos, o mesmo já estava instalado. Solicitei a torre decolagem imediata com carga externa (o Bambi) e, após autorizado, retornamos ao local, chegando lá por volta das 08:40 horas.
Cerca de dez min depois, o Águia Cinco decolou com o Bambi Bucket a 70% (cerca de 410 litros), visto o mesmo estar com limitação de peso, pois estava com cerca de 50% de combustível.
Lançamento de água utilizado o equipamento “bumbi bucket” no incêndio de Heliópolis
Encontrei, sem problemas, o local para abastecimento do Bambi Bucket graças às coordenadas geográficas fornecidas anteriormente. Efetuamos cinco lançamentos cada um, alternadamente, acabando por extinguir, quase que totalmente, o fogo e afastando de vez o perigo de o mesmo atingir as circunvizinhanças.
Enquanto fazíamos a extinção do fogo, o Águia Dois retornou à sua missão inicial de fazer o socorro de vitimas que aguardavam para serem removidas ao hospital Heliópolis, com os cuidados de nossa equipe médica.
O BOM FILHO À CASA TORNA
Retornamos todos ao campo de marte, a tempo de ver os comentários das varias emissoras de televisão, cujos jornalistas não se cansavam de tecer elogios a atuação de nossa corporação.
A operação foi divulgada ao vivo nas principais emissoras televisivas do território nacional e para todo mundo através da CNN e diversas outras empresas internacionais.
Em momento algum tivemos expoentes de atuação, executando todas as ações de maneira coordenada, não se desperdiçando um segundo sequer de tempo. Tudo funcionou como um relógio: enquanto uma aeronave fazia uma coisa, a outra fazia outra, todos se comunicando e se entendendo perfeitamente. Pela primeira vez, numa única operação, foram tão diversificadas as técnicas e meios para o combate a um incêndio em edificações elevadas, além dos convencionais.
UMA OPERAÇÃO DE RISCO
Existe um risco real do emprego da aeronave próximo ao fogo ou em ambientes próximos devido a vários motivos técnicos 22. Angustiava-me saber que a única solução seria arremeter o mais rápido possível, a fim de salvar minha tripulação embarcada e não causar estragos maiores. No caso de Heliópolis, se isso acontecesse, teríamos que primeiro cortar os cabos ou alijar o cesto, para depois arremeter, sendo este o principal risco que correram os tripulantes, verdadeiros Heróis.
Com relação às cenas presenciadas por mim e por todos os que participaram da operação, as mesmas nunca mais serão esquecidas, cenas que mostraram momentos de verdadeiro horror e angustia, por não se ter certeza do que e como fazer para controlar a situação. Sempre vou lembrar aquelas crianças chorando, daquelas pessoas gritando e gesticulando para nós, aquela senhora que tentou pular e foi salva por aquele homem que, muito calmo, a segurou. Lembro-me de todos saltitando de tão quente o chão e de um senhor que ficou o tempo todo agachado, até ser retirado por um bombeiro, enquanto o outro helicóptero ficava no pairado no meio do fogo e da fumaça. Coisas que só vemos em filmes.
Nada foi tão emocionante e gratificante quanto a retirada das primeiras vitimas, após todas as tentativas frustradas de aproximação com pendulo. Achei que não iria conseguir, mas depois de pousar, aquela tremedeira nas pernas acabou e pude respirar aliviado ao ver que tudo dera certo. Naquele momento, tivemos que ultrapassar vários limites dos helicópteros e principalmente pessoais, o que fizemos com absoluto sucesso. Tão apreensiva foi a operação realizada com McGuire, a operação de lançamento de água com Bambi Bucket, normalmente tensa, chegou a ser até uma atividade “agradável”.
OS HERÓIS
Gostaria de referenciar e agradecer aqui a atuação dos Sargentos Adão e Januário (do Corpo de Bombeiros), que ficaram no McGuire, salvando as primeiras vitimas e do Sargento Pimentel, que desceu no cesto, salvando mais três vitimas. Esses profissionais são os verdadeiros Heróis que arriscaram suas vidas, uma vez que, pelo bem daquelas pessoas, se expuseram às chamas, enfrentaram o risco particular das operações de cesto e McGuire sem hesitar e se submeteram ficar à mercê dos comandantes das aeronaves, os quais pouco poderiam fazer caso as mesmas perdessem a sustentação, a não ser alijá-los.
UM DEPOIMENTO
No dia seguinte ao ocorrido, a equipe de reportagem da Rede Globo compareceu a nossa sede, no campo de marte, somente para nos agradecer e cumprimentar pela atuação. Recebi pessoalmente a equipe quando a repórter Eleonora Paschoal deu o seguinte depoimento:
“Vocês são demais! Estávamos fazendo um sobrevôo sobre o Osasco Plaza Shopping, onde, aliás, vocês tiveram uma brilhante atuação, fazendo umas tomadas para verificar se estavam fazendo alguma obra no local, com as imagens ao vivo. Ao terminarmos,o Luchesi perguntou para onde iríamos e, não sei o motivo, pedi para irmos para a zona sul, ver a favela da vila prudente. Quando lá chegamos fomos afastando a aeronave para melhorar o ângulo das tomadas. Em determinado momento o repórter cinematográfico Edson Silva avistou, na direção do Ipiranga, uma fumaça muito grande e resolvemos verificar o que era. Qual nossa surpresa quando, mais próximo do local, na favela Heliópolis, avistamos um fogo imenso. Solicitei a central da emissora para colocarmos as imagens ao vivo no ar, a fim de que alguém, bombeiros, policiamento, CET, Grupamento Aéreo, etc. as visse e tomasse as melhores providencias. Enquanto isso, o Luchesi tentava fazer contato pela fonia aeronáutica com o Solo Águia23, quando solicitou que mandassem imediatamente uma aeronave para o local e acionassem o Corpo de Bombeiros, que até o momento, não havia conseguido chegar. O Transito estava complicado demais. Depois de Termos conseguido o contato com vocês, chegando mais perto, avistamos aquelas pessoas correndo de um lado para o outro. A impressão que eu tinha é de que podíamos pegá-los com a mão, mas era mera ilusão. Emocionei-me muito nesse momento, e é uma cena que nunca mais vou esquecer. Senti-me totalmente impotente ante a situação e achei que as vitimas iriam morrer, pois ninguém chegava ao local. Havia um civil com uma mangueira de jardim, do edifício em frente, jogando água e varias pessoas gesticulando e gritando desesperadas.
O Edson Silva chegou até a dizer que não poderia mostrar ao vivo aquelas imagens de terror, mais era preciso, pois poderíamos ajudar em alguma coisa no planejamento da operação de salvamento.
Quando a emissora colocou no ar nossas imagens, já estávamos lá há cerca de quinze minutos. Ninguém chegava, e comecei a entrar em desespero. Foram minutos que pareceram eternos até vocês chegarem, quase junto com uma viatura do Corpo de Bombeiros. Ficamos torcendo muito e, no meio aquela situação confusa, não entendi muito bem o que seria feito, quando vi que o helicóptero de vocês se colocou próximo ao fogo, afastando as labaredas do teto, como se fosse um enorme ventilador. Achei isso sensacional, uma idéia magnífica. Menos de cinco minutos depois chegou o outro helicóptero e se aproximou mais ainda do teto, no meio do fogo e da fumaça, de tal modo que não podíamos nem vê-los direito de onde estávamos. E o resto você já sabe, pois estava lá.
Minha sensação de impotência ia aos poucos desaparecendo à medida que vocês atuavam. Tudo era perfeitamente coordenado, como se vocês tivessem ensaiado aquilo. Ficamos sabendo que nada semelhante no mundo havia sido feito anteriormente. Ficamos maravilhados com a atuação de vocês e dos bombeiros. O tempo todo vocês nos passavam informações da situação, através do Luchesi, as quais transmitíamos ao vivo para a televisão. Fiquei muito gratificada por isso, pois de impotente ante a situação passei a me sentir útil novamente. A maior recompensa foi ver, no final, que ninguém havia morrido pelo fogo, a não ser aquelas crianças intoxicadas que não saíram a tempo do prédio.
O trabalho de vocês foi fantástico. Já havia visto vocês operarem todos aqueles equipamentos isoladamente em outras ocasiões. A criatividade, a sensibilidade, a rapidez nas decisões acertadas me deixou extasiada. A troca de informações entre vocês e as aeronaves da imprensa foi bárbara.
Vocês são realmente heróis, pois não é qualquer um que teria a coragem de fazer o que fizeram. Sempre que precisarem contem com a gente, e que Deus os proteja!”
O ENSINAMENTO
Dentre os vários ensinamentos que certamente assimilei naquele fatídico dia, um deles é que nada é absolutamente verdadeiro, a não ser que se prove na prática. Nunca sabemos realmente quais são nossos limites, apesar de sempre respeitá-los.
Acabamos, todos, cravando na história de nossa gloriosa Corporação mais uma página de um relevante serviço prestado à comunidade paulista, que serviu de exemplo ao Brasil e ao mundo. Certamente, sem a presença Divina, nada poderíamos ter feito.
NOTAS
1. Inspeção realizada em aeronave, por mecânicos e pilotos, antes do vôo.
2. Funções a bordo dos helicópteros do GRPAe: Comandante da Aeronave (primeiro piloto). Comandante de Operações (segundo piloto) e Tripulantes Operacionais (observadores, mecânicos, médicos e enfermeiros).
3. As equipes são divididas de acordo com as missões: “A” atende o policiamento aéreo (apoio em ocorrências, trânsito, rodoviária, buscas etc.), “B” atende o resgate (missões aeromédicas) e “C” atua complementarmente.
4. Vôo diário realizado nos períodos matutino e vespertino, nos horários de rush, objetivando melhorar a fluidez do tráfego, através do fornecimento de informações.
5. Instruções e recomendações transmitidas aos tripulantes e passageiros antes de qualquer voo ou missão.
6. Cel Res PM Sérgio Luchesi, ex-comandante do Grupamento de Radiopatrulha Área.
7. Viatura de grande porte equipada com tanque de capacidade aproximada de 4.000 litros de água e uma bomba d’água acoplada ao motor.
8. Centro de Operações do Bombeiro.
9. Técnica utilizada para as descidas controladas de homens em locais de difícil acesso, partindo de uma plataforma fixa (no caso o helicóptero no vôo pairado), onde são utilizados cabos e dispositivos ou esquemas para a frenagem durante a descida.
10. Técnica que leva o nome do sargento americano que a idealizou. Consiste no transporte de pessoas ancoradas na extremidade de cabos, normalmente tripulantes especializados, possibilitando aos mesmos ter acesso às vítimas para resgatá-las do local isolado.
11. Equipamento desenvolvido no GRPAe, idealizado a partir de um filme americano, que consiste numa gaiola de náilon com dois aros de alumínio que, quando suspensa, tem a forma cônica. Conectada ao gancho do helicóptero, permite o transporte de até quatro pessoas com segurança.
12. Disco formado pelo movimento circular das pás do helicóptero.
13. Vôo estacionário sobre um determinado ponto, tomando por base referências (horizontais, verticais e laterais) em relação ao solo.
14. Abreviatura utilizada para indicar o Regime do Gerador de Gases no grupo turbo motor (turbina), proporcional à potência a ele exigida.
15. Uma das frases do circuito de tráfego durante o procedimento de pouso, que é composto de perna do vento (quando a aeronave está se deslocando a favor do vento), perna base (curva de 180º mantendo ângulo constante, após a perna de vento) e aproximação final (quando a aeronave se coloca contra o vento para pouso).
16. Oscilação da carga colocada externamente à aeronave, podendo ser longitudinal, lateral e circular. O último é o mais perigoso por ser o mais difícil de ser revertido, devendo o piloto arremeter ou ganhar velocidade, nessa situação.
17. Abandonar a operação de aproximação.
18. Ato de conectar o equipamento de salvamento da vítima ao equipamento do Tripulante Operacional.
19. Viatura de grande porte, equipada com tanque de capacidade aproximada de 8.000 litros de água, cuja função principal é o transporte de água para o local do sinistro.
20. Equipamento canadense desenvolvido para combate a incêndios, consiste num cesto de náilon conectado ao gancho do helicóptero. Através desta técnica, coleta-se água e, através de acionamento elétrico feito pelo piloto, alija-a sobre o fogo.
21. Global Positioning System (Sistema de Posicionamento no Globo), aparelho navegador/localizador que usa satélites existentes na órbita terrestre para dar informações de latitude/longitude (coordenadas geográficas).
22. O ar fica turbulento devido às correntes ascendentes que existem no local: fica também rarefeito, diminuindo a sustentação e consequentemente exigindo maior potência do motor. A sustentação diminui, uma vez que é diretamente proporcional à massa de ar existente e à velocidade da superfície aerodinâmica. Como a tendência da aeronave é se deslocar para o local mais quente (que tem menor resistência ao movimento), no caso de aeronave começar a descer, o piloto aplica instintivamente o coletivo aumentando a potência. Com isso o ângulo de ataque das pás aumenta e ocorre o fenômeno do “stol de ponta de pá”, que é a perda de sustentação, pois a mesma faz com que a camada de ar que passa por ela se desloque a partir da extremidade do disco do rotor. Resumindo, quanto mais potência se aplica, mais sustentação se perde.
23. Nome operacional da Sala de Rádio do Grupamento de Radiopatrulha Aérea.
O autor atualmente é Coronel da Reserva da PMESP, Piloto de Helicóptero do Grupamento de Radiopatrulha Aérea. Formado em Eletrotécnica pela Escola Técnica Federal de São Paulo, em Direito pela Universidade Mackenzie e em Análise de Sistemas pela Faculdade de Tecnologia de São Paulo.