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JORDANO PEREIRA ARAÚJO e outros
CBMDF, estudo publicado no site Resgate Aéreo.

Introdução

O benefício do uso de helicópteros nos sistemas de Atendimento Pré-Hospitalar civis permaneceu controverso durante muitas décadas, quando não se conseguia evidenciar na literatura científica uma melhora evidente na mortalidade ou na morbidade dos pacientes em virtude do atendimento por helicópteros diretamente na cena do trauma (1), (2) (3) (4). Os estudos mais recentes, entretanto, evidenciam que há queda da mortalidade e da mortalidade, principalmente quando a tripulação conta com profissionais de nível médico (5) (6) (7).

As vantagens do uso de helicópteros no Atendimento Pré-Hospitalar (APH) incluem: diminuição no tempo de resposta à solicitação, principalmente em regiões distantes; versatilidade e possibilidade de atuação em regiões de difícil acesso; disponibilização rápida de suporte avançado de vida na cena do evento; transporte diretamente para serviços especializados, quando necessário (8).

O Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) iniciou as atividades com helicóptero próprio em 1996, quando passou a operar uma aeronave Esquilo AS 350/B2 (9). Naquele período a tripulação era composta por dois pilotos e dois ou três tripulantes operacionais, nas atividades de atendimento pré-hospitalar.

A partir de 2009 o serviço passou a contar com equipe composta também por médico e enfermeiro, além dos pilotos e dos tripulantes operacionais.

Objetivos

Os objetivos do presente estudo são apresentar as características do serviço aeromédico do CBMDF e o perfil epidemiológico dos pacientes atendidos no ambiente pré-hospitalar.

Material e Métodos

O presente estudo é do tipo observacional, descritivo, quantitativo, e constitui-se de uma análise retrospectiva das fichas de todos os atendimentos realizados entre julho de 2009 e julho de 2012. As referidas fichas são padronizadas e geradas a cada atendimento, e foram revisadas em busca das seguintes informações: características das vítimas atendidas (gênero e idade), o mecanismo de trauma, os tipos de lesões encontrados e os procedimentos realizados pela tripulação.

Resultados e discussão

A aviação do CBMDF conta com aeronaves de asa fixa (aviões) e aeronaves de asa rotativa (helicópteros). Estes últimos são operados pelo 1º Esquadrão de Aviação Operacional (1º EsAvOp), que faz parte do Grupamento de Aviação Operacional (GAvOp).

Hoje o CBMDF (1º EsAvOp) conta com dois helicópteros, sendo um Esquilo AS350/B2 e um EC 135/T2 (Figura 1).

Este último está configurado como Ambulância Tipo E ou Aeronave de Transporte, que se equipara a uma Ambulância de Suporte Avançado, conforme os pré-requisitos da Portaria n. 2.048 do Ministério da Saúde (10).

As aeronaves do CBMDF são utilizadas em múltiplas tarefas, dentre as quais estão: atividades de busca, transporte de pessoal, salvamento em áreas de difícil acesso, combate a incêndio, além de outras.

Quando em realização de missões aeromédicas, a tripulação das aeronaves é composta tipicamente por: piloto, copiloto, médico, enfermeiro e tripulante operacional. O tripulante operacional é um militar treinado na função de auxiliar os pilotos nas manobras da aeronave além de atuar em resgates e no atendimento pré-hospitalar.

Existem hoje sete médicos atuando no serviço aeromédico do CBMDF: dois cirurgiões, dois anestesistas, um ortopedista, um pediatra e um cardiologista. Todos tem experiência em atendimento de urgência, além de terem recebido treinamento específico para a atuação no ambiente pré-hospitalar, e especificamente no atendimento aeromédico em helicópteros.

As aeronaves do CBMDF atuam no atendimento pré-hospitalar e no transporte inter-hospitalar de pacientes graves. Os critérios de acionamento do helicóptero estão definidos em protocolo, e incluem acidentes automobilísticos com múltiplas vítimas, acidentes em rodovias com distância superior a 30Km do centro do DF, critérios clínicos de gravidade (Escala de Coma de Glasgow menor do que 12 e/ou deteriorando, lesões penetrantes na cabeça, tórax e abdome, etc.), além de outras (11). Tais critérios foram baseados no Esquema de Decisão de Triagem de Campo definido pelo Colégio Americano de Cirurgiões (12).

Durante o período estudado (jul./2009 a jul./2012) foram atendidos pelo 1º EsAvOp 1020 pacientes, sendo 634 (62,16%) casos de transporte inter-hospitalar e 386 (37,84%) casos de atendimento pré-hospitalar (resgate) (Figura 2). O presente estudo tem seu foco nesse último grupo de pacientes atendidos.

Dos atendimentos primários (pré-hospitalares) a imensa maioria foi de casos relacionados ao trauma (360 – 93,26%), enquanto apenas 26 casos (6,74%) eram diagnósticos clínicos. Essa diferença se deve à própria característica do atendimento por helicópteros e aos critérios de acionamento.

A maioria das vítimas de trauma atendidas foi do sexo masculino (278-77,2%) (Figura 2), com uma média de idade de 35,7 (±16,9) anos, com idade variando de 2 a 88 anos.

Esses dados corroboram a tese de que as vítimas de trauma são em geral homens jovens, sendo que dados do Ministério da Saúde mostram que entre homens de 20 a 40 anos as causas externas são a primeira causa de mortalidade (13).

Entre as vítimas de trauma, o mecanismo de trauma mais frequente foi acidente com automóvel (60,0%), seguido por acidente com motocicleta (10,3%) e atropelamento (8,1%) (Figura 3).

É interessante notar que dados do Ministério da Saúde citam que em 2010 os atropelamentos foram a principal causa de mortalidade por acidentes de trânsito no Distrito Federal, ficando o acidente com automóvel em segundo e com motocicleta em terceiro (14).

Em outros serviços que prestam APH por meio de helicópteros, os acidentes de trânsito também constituem o mais frequente mecanismo de trauma (15) (3) (1) (16).

Os diagnósticos mais frequentes das vítimas atendidas foram: traumatismo crânio-encefálico (39,2%); fratura de perna (18,9%); fratura de membro superior (15,6%) e trauma de tórax (13,6%), além de outros (Figura 4).

Como rotina, todos os pacientes atendidos receberam suplementação de oxigênio e foram submetidos a acesso venoso. Em 76  (19,7%) do total de casos , foi realizada intubação orotraqueal (IOT).

Esse dado é compatível com a gravidade dos pacientes, já que 78 pacientes apresentavam Escala de Coma de Glasgow abaixo de 8, o que é considerado critério para via aérea definitiva pelo ATLS (17). Entre os casos de trauma, o índice de via aérea definitiva foi de 17,5%.

Conclusões

O 1º EsAvOp do CBMDF atendeu, no período estudado, principalmente vítimas graves de acidentes de trânsito, a maioria formada por jovens do sexo masculino, sendo o trauma craniano a lesão mais frequentemente verificada.


Referências Bibliográficas:
1. Thomas, Stephen H., et al. Trauma helicopter emergency medical services transport: annotated review of selected autcomes-related literature. Prehospital Emergency Care. Setembro de 2002, Vol. 6, 3, pp. 359-371.
2. Ringbug, A N, et al. Lives saved by helicopter emergency medical services: an overview of literature. Air Medical Journal. Nov-Dez de 2009, Vol. 28, 6, pp. 298-302.
3. Bledsoe, B E, et al. Helicopter scene transport of trauma patients with nonlife-threatening injuries: a meta-analysis. Journal of Trauma. Junho de 2006, Vol. 60, 6, pp. 1257-1265.
4. Bledsoe, B E. EMS myth #6. Air medical helicopters save lives and are cost-effective. Emergency Mediccal Services. 2003, Vol. 32, 8, pp. 88-90.
5. Brown, J B, et al. Helicopters and the civilian trauma system: national utilization patterns demonstrate improved outcomes after traumatic injury. Journal of Trauma. 2010, Vol. 69, 5, pp. 1030-1034.
6. Sullivent, E E, Faul, M e Wald, M M. Reduced mortality in injured adults transported by helicopter emergency medical services. Prehospital Emergency Care. 2011, Vol. 15, 3, pp. 295-302.
7. Galvagno Jr., Samuel M., et al. Association Between Helicopter vs Ground Emergency Medical Services and Survivial for Adultos With Major Trauma. Journal of the American Medical Association. Abril de 2012, Vol. 307, 15.
8. Thomas, Stephen H. e Arthur, Annette O. Helicopter EMS: Research Endpoints and Potential Benefits. Emergency Medicine International. [Online] 2012. [Citado em: 10 de novembro de 2012.] http://dx.doi.org/10.1155/2012/698562. 698562.
9. Portela, Flávio da Costa. A INFLUÊNCIA DO CUSTO OPERACIONAL DO HELICÓPTERO EC 135T2 – RESGATE 03, PARA SEU EMPREGO NAS DIVERSAS MISSÕES DO CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO DISTRITO FEDERAL. Brasília : Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal, 2008.
10. Brasil. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro. Portaria n. 2048 de 5 de novembro de 2002. Aprova em seu anexo o Regulamento Técnico dos Sistemas Estaduais de Urgência e Emergência. [Online] 20 de Fevereiro de 2002. [Citado em: 12 de Novembro de 2012.] http://dtr2001.saude.gov.br/sas/PORTARIAS/Port2002/Gm/GM-2048.htm.
11. Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. Critérios para Acionamento Imediato das Aeronaves do CBMDF. Boletim Geral do CBMDF. 2 de Maio de 2012, Vol. 82, pp. 18-19.
12. Centers for Disease Control and Prevention. Guidelines for Field Triage of Injured Patients. Morbidity and Mortality Weekly Report. 13 de Janeiro de 2012, Vol. 61, 1, pp. 1-20.
13. Brasil. Ministério da Saúde. Indicadores de Mortalidade. DataSUS. [Online] 2011. [Citado em: 05 de Novembro de 2012.] http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?idb2011/c09.def.
14. Waiselfisz, Julio Jacobo. Mapa da Violência 2012. Caderno Complementar: Acidentes de Trânsito. São Paulo : Instituto Sangari, 2012.
15. Martin, Terence. Aeromedical Transportation: A Clinical Guide. Burlington : Ashgate Publishing Company, 2006. pp. 3-12.
16. Melton, JT K, Jain, S e Deo, S D. Helicopter Emergency Ambulance Service (HEAS) transfer: an analysis of trauma patient case-mix, injury severity and outcome. Annal of the Royal College of Surgeons of England. 2007, Vol. 89, pp. 513-516.
17. Colégio Americano de Cirurgiões. ATLS. Suporte Avançado de Vida no Trauma para Médicos. Manual do Cuso para Alunos. 8. Chicago : Colégio Americano de Cirurgiões, 2008.

Autores: Os autores são médicos do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal: 1º Ten Med Jordano Pereira Araújo; 1º Ten Med Rafael Villela Silva Derré Torres; 1º Ten Med Felipe Dias Maciel Diniz; Asp Med Rafael Ferraz Martins; Cap Med Alexandre Garcia Barbosa; Maj Med Emmanuel Lucas Gomes e Maj Med Aloísio Gonçalves de Sousa Júnior.

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1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns pelo estudo! Iniciativa que deve ser incentivada a outras OASP, porque faz uma análise da necessidade do serviço aeromédico, identificando o cenário mais comum e tipo de vítima. Isso facilita a tomada de decisão quanto ao tipo de equipamento que a OASP precisa para melhor atender seu usuário, qual a formação a ser dada para força de trabalho e como desenvolver seu processos produtivos.
    Abraço
    Cap Baracho
    GRPAe/SP

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